Desconstruir para Libertar
06/08/22 Estou viva! Que milagre misterioso foi esse que se apoderou desta carne? Carne que quando se formou não era minha, carne que é uma palavra tão simplista para denominar aquilo que forma os nossos corpos.

Desconstruir para libertar

Estou viva! Que milagre misterioso foi esse que se apoderou desta carne? Carne que quando se formou não era minha, carne que é uma palavra tão simplista para denominar aquilo que forma os nossos corpos. Inteligência intemporal, inesgotável é aquela que permite ao corpo gerar-se, crescer, desenvolver-se e morrer. O meu caminho não para de me surpreender. A cada esquina um novo desafio, uma nova conquista, alguém para me ensinar, ou para me ouvir. Nunca quis ter uma vida monótona e nunca a tive, de uma forma ou de outra havia sempre experiências ou situações que se passavam comigo que me inspiravam, animavam, que me incentivam a procurar mais. Eu busco, dentro de mim, porque gosto do corpo que habito, do ser em que me vou tornando. Sei que não sou perfeita, mas o que é a perfeição? Há histórias sobre a perfeição, dentro delas há personagens que povoam o nosso imaginário, os mitos moldam a forma como as nossas civilizações evoluem, baseando-se nesses personagens, nas suas façanhas fantásticas. E assim a nossa percepção do certo e errado, do perfeito e imperfeito vai sendo construída. Aquilo que tenho aprendido e que me parece algo benéfico para mim relaciona-se com a importância da capacidade de desconstruir.
Imaginem as nossas cidades, com prédios enormes, onde trabalham e vivem milhares de pessoas. Prisões reais, à semelhança das que temos na nossa psique. Muros de conceitos, onde fica a liberdade no meio de tantas construções, tantas fronteiras, tantos símbolos? É libertador quando aceitamos que não estamos em controle de nada. Até o mais meticuloso plano pode mudar de direção, isto não quer dizer que fazer um plano para o dia ou para a vida seja descabido, os planos ajudam-nos a mantermo-nos no caminho que pretendemos, para chegar aquilo que é o nosso ideal. Já a expectativa que vem incluída no plano, como uma promoção leve dois pague um, essa, pode estragar tudo. Quando a vida nos quer surpreender, vamos deixar-nos ser surpreendidos!
É verdade que a surpresa tem um elemento de desconhecido, desconhecido para nós pode e muitas vezes significa medo. Voltando atrás, relembrando que ninguém detém o controle absoluto, o melhor é aproveitar a experiência e confiar que as nossas escolhas nos levaram até ali porque ali há qualquer coisa de importante a ser absorvido.
Ao longo do meu processo de cancro já passei por várias fases, acredito que tenho de aprender com cada uma delas. Às vezes dói, fisicamente, mentalmente, emocionalmente. Quem não gosta de uma desgracinha para poder contar, para poder chafurdar. Há quem se alimente de desgraças, principalmente alheias. Às vezes parece difícil de ver, mas há sempre um lado positivo em tudo, ainda que possa ser algo que não conseguimos reconhecer porque não nos beneficia pessoalmente. Por exemplo, se eu fosse desta para melhor iria ser bom para poupar água e outros recursos naturais. Há sempre um lado positivo em tudo, a vida é feita de dualidades. De qualquer forma é importante destruir as torres, para sermos livres. Fui operada esta semana e retirei a mama, uma parte de mim. Perguntei-me e perguntei a toda a gente, para onde vai ela? É possível sentir saudade de uma mama, ou preocupar-me com o destino dela? É possível e é a minha realidade. Foi para analisar, disse o médico. Fica a curiosidade mórbida ainda assim de querer ver, o bixo que a levou de mim. Era uma bela mama. Despedi-me dela antes de entrar no bloco. Agradeci-lhe os momentos que ela me proporcionou, a segurança que me deu, a autoestima que me fez sentir, o orgulho de sentir com ela uma parte do que é ser mulher. No entanto viver é mais importante e nas hipóteses que havia em cima da mesa substituí-la era a que me parecia melhor.
Desconstruí-me, fisicamente e psicologicamente, para aos poucos perceber o que sobrou do espaço onde se erguia o castelo que havia construído para me proteger. Espaço. Encontrei espaços para mergulhar na maionese, sem medo e sem vergonha do que posso encontrar. Ainda tenho muitas construções para desconstruir, mas acredito que tenho tempo para lá chegar enquanto passeio neste espaço aberto. Em mim agora não quero construir nada, só deixar crescer, como na Natureza. Já se vê a relva a colorir o chão, as flores vão aparecendo em cada recanto brotando dos destroços que ficaram pelo chão, acredito que a chuva vai criar um animado riacho que alimentará árvores e arbustos protetores dos seres etéreos que farão deste santuário a sua casa, casa essa que será também a minha, mas podia ser a nossa.

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