É Preciso Falar, Gritar, Denunciar
08/03/23 Hoje decidiram que seria o dia da mulher e é bom relembrá-las neste dia, e sempre. Pessoalmente recordo que foi por esta altura no ano passado que divulguei nas redes sociais que estava em tratamento do cancro da mama
As mulheres precisam de ter mais voz
Hoje decidiram que seria o dia da mulher e é bom relembrá-las neste dia, e sempre. Pessoalmente recordo que foi por esta altura no ano passado que divulguei nas redes sociais que estava em tratamento do cancro da mama, já tinha cortado o cabelo, estava a adaptar-me a nova realidade, a todo o percurso que tinha a minha frente, ao medo, à coragem, à dor, fé, e a tudo que iria viver neste processo. No entanto, não é apenas no processo de cura do cancro da mama, (que está intrinsecamente ligado ao feminino e a nossa ideia de identidade feminina), que os desafios aparecem, o simples facto de ser mulher é um grande desafio por si só, esteja esta mulher onde estiver e tenha o estatuto que tiver, é um desafio sério, crescer, evoluir, entender tantas crenças limitantes que nos envolvem por sermos mulheres. Nem sei bem por onde começar a dar o meu testemunho como mulher, e como tantas outras já calei e continuo a calar situações e a minimizar ações, conversas, momentos em que me faltaram ao respeito, em que diminuíram ações graves, em que senti que o melhor a fazer para me proteger e a minha família era ficar calada, não ripostar, não denunciar. Infelizmente ainda é este o mundo em que se vive, em Portugal, na China ou no Irão, claro que aqui temos melhores condições de vida e mais direitos, mas para que servem as leis se depois nem sempre são cumpridas? Para que serve a educação social a ideia da igualdade e tantas palavras bonitas se depois as ações são repreensíveis. Mais importante que leis escritas num papel, são as nossas ações, os nossos exemplos e as nossas consciências.
O que se vê por fora, em encontros sociais e nas redes, em termos de comportamentos familiares, relativamente ao trato e à relação com as matriarcas é muitas vezes um teatro bem ensaiado por gerações e gerações de normativas do patriarcado. Quando as luzes se apagam e os espectadores saem da sala de espetáculos é que o fado começa realmente. E digo fado porque é uma canção triste, cheia de lamento, de saudade, de esperança, que amanhã será melhor, que as culpas também são nossas, que eles não têm uma vida fácil, que foram maltratados pelo pai, ou pela mãe ou pelos dois. São padrões que se repetem de geração em geração, e as mulheres assim como os homens, não conseguem libertar-se deles, por pena, por compaixão, por amor, ao seu companheiro, ao seu amigo, a sua família. No entanto isso não é saudável, perpetuar uma relação de que tipo seja por pena, ou mesmo por compaixão é tão tóxico como a minha quimioterapia, ou mais até, porque a quimioterapia é para tratar um mal maior que a curto ou médio prazo nos iria matar, mas essa toxicidade de manter uma relação por pena ou para não sair da zona de conforto vai matar a nossa individualidade, a nossa liberdade, os nossos sonhos e desejos de evolução como pessoa. É uma morte lenta, para nos tornarmos numa mãe/ empregada de limpeza/ psicóloga, quando deveríamos ser apenas amantes, companheiros, amigos. Temos de nos ajudar uns aos outros a evoluir e a progredir nos obstáculos que a vida nos vai dando, mas se há algo que eu tenho vindo a aprender é que se a outra pessoa não quiser mudar, e ela própria não der passos concretos em direção a mudança que pretende criar em si mesmo, essa mudança não vai acontecer. Se queremos que a nossa vida melhore, se queremos ser melhores, alterar comportamentos e crenças limitantes tem de partir de nós, nem a melhor psicóloga, nem o melhor coach, nem a melhor esposa, ou esposo, vão fazer essa transformação acontecer magicamente. A terapia ajuda, com certeza que sim, mas se não dermos o passo, se não concretizarmos a ação que vai mudar algo, mesmo que aos poucos, aquilo que nos incomoda sobre nós ou mesmo nos outros, (visto que o que nos incomoda nos outros é normalmente um espelho do que é um problema em nós,) não há resolução a vista. Isto em termos de relações agora em relação às mulheres e aquilo que os homens julgam saber e gostam de opinar, quando nunca tiveram uma menstruação, nunca foram assediados, várias vezes ao dia, nunca tiveram medo de passar em algumas ruas a noite, ou de vestir uma roupa assim ou assado por medo de ser abusada, ou por exemplo não sabem o que é o dilema dos métodos contracetivos ou do aborto. Sei que não são todos, há muitos que já sofreram este tipo de abusos, mas normalmente os que gostam de opinar, de uma forma incoerente ou demagógica são quem não tem muito conhecimento de causa.
Aqui há muito por onde falar, em relação aos métodos contracetivos é na minha opinião uma vergonha que só haja um deles para ser usado pelo homem e que tem uma taxa falível muito mais alta que os que as mulheres tomam e que as enxofra de químicos hormonais e muitas vezes mortais a longo prazo. A forma como administram os métodos contracetivos também é muito lamentável, aconselhar mulheres que nunca tiveram filhos a por o DIU, o que leva a mulher a viver diariamente com dores horríveis. Proporem utilizar um implante que a médio prazo gera cancro, as pílulas também podem ter influência no aparecimento do cancro da mama, na falta de libido, até as dores no corpo, alteração de humores, e por aí vai, pela lista interminável dos efeitos secundários dos métodos contracetivos. Parabéns medicina do patriarcado! Mas, não, temos muita escolha, não nos devemos queixar. Really? Praticamente todos os contracetivos que são conhecidos do público geral e indicados pelos médicos têm mil efeitos secundários para as mulheres, isto não é igualdade, é opressão. Só recentemente se começa a falar em pílula para homens, que, vale a ressalva, não terá quaisquer efeitos secundários, há que pensar em manter os homens com a mente e corpo sãos. A mulher nem por isso. Quem gera a criança, é indefinidamente a mulher, por isso eles não têm de se preocupar da mesma forma, infelizmente, apenas aqueles que têm consciência e uma educação com exemplos concretos que mostram como deve ser uma relação saudável entre iguais, é que tende a apoiar as mulheres como é suposto.
Todos temos o direito a ter relações sexuais quando queremos e com quem queremos, de uma forma responsável e respeitando as vontades e o corpo do outro, no entanto os acidentes acontecem e quando assim é cabe a mulher primordialmente decidir se tem ou não as condições físicas, mentais, emocionais e materiais para gerar, dar a luz e criar uma nova vida. Não devia ser nenhum governo, religião, ou instituição a decidir isso, até certa altura da gestação do feto ou se este puser em causa a vida da mulher em qualquer altura da gestação o aborto tem de ser um direito da mulher. E é uma dor incompreensível quando acontece no caso de um filho desejado, além disso o corpo muda, há uma série de sintomas e de complicações que acontecem durante e depois do processo, não há nada simples sobre isto. Também devia ser um direito da mulher ter médicos empáticos e que respeitem o seu corpo, infelizmente já ouvi demasiadas historias em que os médicos faltaram ao respeito a mulheres durante procedimentos delicados, como por exemplo dizer a seguinte frase "lá vou eu trabalhar aonde os outros se divertem”, sim, nojo. Houve denúncia, e não se passou nada. Isto é inadmissível e uma humilhação para tantas mulheres, que são abusadas de milhares de maneiras todos os dias.
É importante falar disto, e de tantas outras coisas que eu não falei…é importante porque todos os dias uma menina nasce e tem de viver num mundo onde a mulher sofre, abusos, assédio, violência, humilhação, bullying, privação da educação e tantas outras coisas. É crucial falar em educação sexual, no respeito pelo corpo da mulher e pelas suas vontades e desejos, na necessidade de ela se libertar de companheiros que na realidade se tornam parasitas, e de ela ter igualdade não apenas no papel, mas na realidade, no dia a dia. Por isso eu digo, na dúvida vamos falar, vamos questionar, vamos gerar mudança e conhecimento.

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