Deixar as Feridas Respirar
23/01/23 Sei que é difícil pôr o dedo nas feridas abertas pelo cancro, mas mais importante que isso é deixá-las respirar. Ninguém escolhe ter cancro, pelo menos conscientemente, e no entanto ele visita cada vez mais pessoas nos seus corpos.
Deixar as Feridas Respirar
Sei que é difícil pôr o dedo nas feridas abertas pelo cancro, mas mais importante que isso é deixá-las respirar. Ninguém escolhe ter cancro, pelo menos conscientemente, e no entanto ele visita cada vez mais pessoas nos seus corpos. Há quem desista da vida, mas isso é outra conversa. Penso que a grande maioria dos doentes de cancro, querem viver, continuar a sua vida, ver as suas famílias crescer, envelhecer, olhos nos olhos, mão na mão, dia a dia. O cancro não é rosa, nenhum deles o é. Eu gosto de escrever sobre a luz que o cancro me trouxe, o que ele me mostrou, as experiências positivas que me proporcionou, elas existem e são uma realidade, no entanto é impossível falar sobre cancro e não lembrar também a dor. Pelas experiências de outras pessoas que tenho tomado conhecimento neste caminho, e a minha inclusive, parece-me recorrente a dissimulação da dor, da dificuldade, do medo, da tristeza, face aos que nos são mais próximos mas também face à sociedade. Queremos protegê-los da nossa dor, tal como queremos proteger-nos da nossa realidade. Assim sofremos todos em segredo. Sofrer ou mostrar fragilidade, vulnerabilidade é proibido aos olhos do sistema. Devemos ser fortes, aguentar firme, de sorriso no rosto, enquanto nos tiram sangue pela milésima vez, nos furam a barriga pela décima vez, ou quando nos sentimos nauseados com o sem número de químicos que temos de tomar para esperançosamente sobreviver.
Somos humanos, a dor, tristeza, medo, fazem parte desta frágil condição em que nos encontramos. As vezes é OK estar triste, é OK precisar de um mimo de alguém especial, é OK pedir para nos ouvirem sem a resposta pronta do, “vai ficar tudo bem”, “tu és forte”. Hoje escolho partilhar a minha vulnerabilidade convosco, escolho não ser forte, escolho ser só humana, com todos os conceitos e curiosidades inexplicáveis que definem essa humanidade. Não me entendam mal, acredito que vai ficar tudo bem, que sou forte e agradeço muito que mo relembrem. O que não é possível, é esquecer também o lado lunar, a sombra, que por vezes é assustadora e enorme sim, mas que também nos alivia do calor no verão, quando o sol é demasiado forte, a experiência da vida é sempre dual. No entanto é preciso reconhecer essa “via sacra” que um doente de cancro passa ao longo do seu processo de cura.
No meu caso e no caso das mulheres que têm cancro da mama, essa dor passa também por perder uma parte do corpo que se relaciona diretamente com a sua identidade e feminilidade. Mas teremos a oportunidade de pôr “implantes” que substituem as mamas ou mama, e que nos faz parecer “normais” novamente. Há tantas coisas discutíveis nesta frase. Será um remendo no nosso corpo, uma coisa antinatural, será doloroso o processo, que envolve expansores, cirurgias etc, e depois como é que definimos o que é normal? Não ter mamas para uma mulher ainda soa anormal, mas ter essas mamas “mutantes” que tanto podem ficar com especto natural como podem ficar deformadas é um risco que obviamente traz imensas questões, medos e inquietações válidas, às mulheres que se encontram nesta situação. Para não falar no tempo em que se fica “monoteta”, como diziam os mamonas assassinas. Não vamos normalizar uma coisa que está fora dos padrões assimilados dentro da cultura em que nos inserimos, e de difícil aceitação. Há que dar espaço às mulheres para exprimir estes sentimentos, em vez de minimizar e reprimir, tendo como desculpa as soluções trazidas pela medicina estética, que podem ainda ficar aquém das expectativas, criadas durante o processo. É verdade que por um lado é bom ser possível tirar as células cancerígenas arrancando apenas a mama e mais nenhum órgão vital, mas quem garante que não haverá recidiva noutra parte do corpo mais tarde?
A realidade é que ficamos sem uma parte do nosso corpo e isso não é como deitar uma roupa velha ao lixo, é muito duro, é triste e difícil. Por vezes é realmente importante olhar o outro tomando consciência de todas estas dificuldades e validar a sua dor. Se ela existe não vamos fazer de conta que não, e sofrer todos separados, sozinhos, para não incomodar o outro. A família e amigos estão cá para isso, para nós ouvir, abraçar, guiar, validar. Somos humanos e é próprio do humano sentir dor, ser frágil, chorar, amar, sonhar, cuidar, evoluir. É importante aceitar todas as partes que nos tornam humanos para haver equilíbrio e então avançar para a tão desejada paz interior!
Aqui fica o poema escrito na imagem:
Disforme
O meu corpo adormeceu
Depois de emergir da dor muda
O meu corpo não é meu
Foge me entre mãos e macas
O meu corpo era e é
Mas quem aqui vivia já não está
Agora não me encontro nesta pele
Mesmo que a medicina me alimente
A casca ainda pesa a frida ainda está quente
O meu corpo dá prazer ao outro
Mas não me satisfaz
A mama que era minha
Foi-me cortada, analisada, queimada,
Agora é desperdício,
não é nada,
mas no meu peito,
já foi amor,
Sinal de evolução, 
símbolo de mãe, de alimento,
Para a vida que aspirava gerar,
Dizem que ele vai voltar, 
a ser normal como antes
Isso não é possível
O meu corpo nunca será o mesmo
Um espelho do passado é irreal
E aceitar isso é sacral

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