As luzes
15/10/22 Houve sempre uma luz ao fundo que me relembrava como a vida pode ser doce e o ar fresco nos renova o íntimo a cada respiração. Entrei no túnel do cancro com a certeza de que mesmo nas alturas mais sombrias haveria essa luz a guiar-me até ao final do caminho.
As luzes
Houve sempre uma luz ao fundo que me relembrava como a vida pode ser doce e o ar fresco nos renova o íntimo a cada respiração. Entrei no túnel do cancro com a certeza de que mesmo nas alturas mais sombrias haveria essa luz a guiar-me até ao final do caminho. E assim tenho caminhado de dia e de noite em direção a cura. Estou cada vez mais próxima da saída. Este pensamento foi algo que me ajudou e ajuda a manter o ânimo, a ideia de que haverá uma conclusão.
Entretanto, a vida mostra-nos que é importante estar preparado para tudo, sempre. Estar preparado pode significar apenas aceitar aquilo que vier até nós e lidar com isso da melhor forma possível. Um problema torna-se sempre maior se o nosso estado de espírito se fechar na torre do medo e da raiva, acredito que para encontrar soluções o melhor remédio é procurar a paz, que reside em algum cantinho do nosso ser. Não há dúvida que procurá-la, pode não ser tarefa fácil, no entanto vale a pena tentar! Mas mesmo com esta retórica toda, não estava preparada para que alguém muito importante para mim e que já passou por um processo idêntico tivesse de entrar neste túnel novamente. Isso assusta-me, por mim e por ela. De repente a ideia de que existe um final para este túnel fica mais débil e a saída parece ter ficado mais longe de novo.
Todos sabemos que não ficamos cá para a semente, é preciso renovação! Mas não é nada animado encontrar a figura da Sra Dona morte num passeio habitual pelas nossas ideias, tendo em conta aquilo que ela representa na sociedade de hoje em dia. Finitude, sofrimento, vazio, esquecimento, desespero. Quem diz que a morte é o fim afinal? O dicionário parece que sim….Não poderá ser a morte apenas mais um Renascimento para algo fora do nosso entendimento?
E na linha deste pensamento o que me ocorre é que precisamos de mais fé. Esqueçam a religião, não é disso que estou a falar. Estou a falar de fé. Acreditar em algo que não podemos ver, em algo que não está provado cientificamente, em algo que se calhar nem existe, mas que até prova em contrário também não se pode afirmar inexistente. Será? A questão que nos dá esperança que nos faz voar e curar. Agradeço todos os dias pelos tratamentos e a saúde que a ciência médica me dá. Ainda assim não acham que as nossas vidas estão a ficar demasiado preto no branco? O homem precisa de fé, sem ela metade das "coisas" que utilizamos hoje em dia não existiriam. É ela que faz os seres perseguirem um sonho, até ele se tornar real. Eu acredito em gnomos, fadas, ondinas! Acredito que tomam conta das plantas, das pedras, das águas e de todos os seres da natureza. Também não vemos o vento, mas ele toca o nosso corpo quando se levanta. E esta hein? Tenho fé que vamos viver ainda por muitas primaveras e verões. Vou ter de mandar a Dona Morte voltar outro dia porque para já não temos nada para lhe dizer. Afinal, a luz que eu acreditava estar no fundo do túnel é apenas uma lembrança da direção a seguir, porque quem ilumina o meu caminho é a minha luz interior. Agora, verei melhor, porque caminhamos juntas, se a luz dela ficar mais pequena a minha aumentará para que a escuridão nunca se torne maior.

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