As pedras do Caminho
14/09/22 Renascemos todos os dias. Quando abrimos os olhos e sabemos que aquele dia é mais uma oportunidade de caminhar ao encontro do ser que nos queremos tornar. Às vezes perdemos o caminho, olhamos à nossa volta e vemos os teatros da vida a acontecer.
As pedras do caminho
Renascemos todos os dias. Quando abrimos os olhos e sabemos que aquele dia é mais uma oportunidade de caminhar ao encontro do ser que nos queremos tornar. Às vezes perdemos o caminho, olhamos à nossa volta e vemos os teatros da vida a acontecer. É fácil esquecer o caminho quando gostamos de nos perder numa boa estória. Passamos de protagonistas a espectadores e enquanto nos acomodamos confortavelmente a ver as estórias que passam à nossa volta, o caminho que antes era limpo e claro enche-se de pó, de folhas secas, que encontraram ali a sua última morada. Somos relembrados que estamos perdidos quando o tempo arrefece e não temos onde nos abrigar, ou quando uma borboleta voa diante dos nossos olhos e a sua beleza nos convida a segui-la, para que possamos contemplá-la mais um pouco. Acredito que limpei o pó do meu caminho depois que a borboleta se foi. Tenho feito por lapidar o diamante bruto que me habita. No meu caminho têm havido alguns contratempos que não se limitam apenas à distração das vidas em volta, por vezes cai uma árvore no caminho, vem uma enxurrada e traz pedras que tenho de afastar para continuar. Vou falar-vos de uma das pedras que me ocupa o caminho. A menopausa induzida. É difícil aceitar que com 33 anos tive de entrar em menopausa e todas as complicações que daí advêm. Os calores, suores, que hoje em dia já são menos, mas que ainda acontecem, os humores que se alteram, a falta de apetite sexual, as dores nos ossos, que têm a ver provavelmente com o processo todo da quimioterapia, mas que são agravados com a menopausa e outras medicações necessárias para reduzir as hormonas. Todos esses ciclos que o corpo da mulher leva a cabo, são quebrados para que as células malignas do cancro não migrem e assim estejamos a salvo de que o cancro se espalhe. Depois há a questão da fertilidade diminuir e a possibilidade de engravidar reduzir muito. Pedras e pedregulhos, que nos podem fazer cair ao longo do caminho. Eu, como acredito que é possível haver sempre um lado positivo, mais uma vez me viro para a arte em busca de auxílio. Não vou construir um castelo, isso já deixei assente, mas posso deixar esculturas zen, para que quem venha a seguir encontre nelas um pouco do meu processo e da paz que fui procurando ao reutilizar estas “pedras” que me vão surgindo.
Se há algo que me faz feliz nesta caminhada é também saber que não estou só. A minha família é o mundo todo, mas devo deixar uma palavra especial àqueles que fazem parte das minhas raízes. Neste aniversário consegui reunir uma grande parte da minha família, isso alimentou o meu coração de memórias que sei que tanto eu como eles vamos levar para toda a vida. A presença de quem amamos é um remédio dos melhores que há. Com um toque, uma palavra, um olhar a nossa alma ilumina e gera este perfume de amor que me parece o mais belo tratamento a ser explorado, dentro das nossas casas. Eu fiz questão de ser o elo de ligação, para que todos estivessem juntos. Naquela noite senti-me mais inteira, bonita, orgulhosa, de mim e de todos eles que estavam ali pela Catarina, mas acima de tudo pela família. Foi muito especial e realmente não há palavras que possam descrever o quão agradecida e feliz eu me sinto por aquela noite ter acontecido assim, como aconteceu. A família faz a diferença, seja ela de sangue ou aquela que foi escolhida por cada um. Não queiram trilhar o caminho na solidão, será muito mais difícil. As mãos existem para ser dadas, os olhos para ver, sorrir, chorar, assim como a boca, existe para beijar, para consolar com palavras doces, ou para nos relembrar que o caminho é em frente. Se salva o nosso corpo, não sei, mas que se ilumina de luz a alma quando um olhar, uma palavra, um toque da nossa família, nos encontra parece-me já em si uma cura. Com a força e a ajuda de todas estas mãos, olhos e bocas o meu caminho continua, que venham as pedras e os pedregulhos, não cairei porque não estou só! 

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