Cicatrizar
17/08/22 Fui pela primeira vez confrontada com a realidade da cicatriz. É muito grande. Não é bonita e não inspira confiança. Uma linha que marca a ausência de uma parte de mim, que já não faz parte.
Cicatrizar
Fui pela primeira vez confrontada com a realidade da cicatriz. É muito grande. Não é bonita e não inspira confiança. Uma linha que marca a ausência de uma parte de mim, que já não faz parte. Tocar-lhe é desagradavel, desconfortável, doi. Ao mesmo tempo, é como se tocasse um corpo estranho, falta-me a sensibilidade na pele arrancada e esticada para cobrir a peça eliminada. E pergunto-me, como pode doer então se a sensibilidade falta? Para me responder, toco-a mais uma vez, com delicadeza. A pele não dá sinais de vida, mas o interior da carne, esse ressente-se, esse está dorido, no seu processo de recuperação. Pode comparar-se a quando temos uma parte do corpo dormente e a tocamos, é o mais próximo que encontro deste sentimento. A enfermeira que me tirou o penso, massajou-me ao longo da cicatriz com força. Senti-me nesse momento, (que pareceu uma eternidade), como se fosse massa, a ser preparada para um folar, mesmo não sendo páscoa. Foi tão desagradavel. Queixei-me. Tem de ser assim tão forte? Tem de ser assim. Disse ela. Deus me livre, assim não consigo, ou pelo menos para já não dá, prefiro dar as injeções na barriga, é mais fácil. De qualquer forma tenho de as dar, quer queira quer não, tanto as injeções como as “massagens”. É para cicatrizar bem. Diz a minha mãe. Eu digo que sim. A minha pele está seca e aparecem alergias aqui e ali. No entanto, a verdade é que estou a recuperar muito bem, o meu corpo está a portar-se lindamente e tenho de lhe agradecer muito todo o bombardeamento de químicos, operações, massagens, injeções e mais umas voltas, que ele tem aguentado. O corpo não é mais do que um invólucro onde a nossa consciência vive. Não é por isso, de qualquer forma, que isto quer dizer que ele é pouco importante. Ouvi desde pequena esta frase, “O meu corpo é o meu templo”, não queremos um templo em más condições, há que o estimar.
Se antes falei em desconstrução, agora venho dizer que o nosso corpo é uma das poucas construções que devemos cuidar. Nem sempre é fácil, parece que tudo o que sabe bem faz mal e o que sabe mal faz bem. Isto deve querer dizer alguma coisa. Provavelmente que estamos mal habituados, principalmente a geração anterior a mim e as seguintes. O pessoal mais velho, teve uma vida completamente diferente de nós que nascemos nos 80’s. Só para dar um exemplo a minha avó não tinha um fogão como conhecemos hoje nem frigorífico quando era miúda, para tomar banho tinham de ir buscar água à fonte municipal, ficar na fila, tanta coisa que era completamente diferente. Hoje temos uma vida tão confortável aqui pela europa, tenho de agradecer muito por isso. Se eu fosse da mesma geração que a minha avó e tivesse cancro aos 33 provavelmente já não estaria por cá. Pensar a vida desta forma, torna todos os momentos dela exponencialmente mais importantes, às vezes é de mais. Sente-se mais forte a vontade de realizar sonhos que se adiou, de abraçar pessoas que se ama, de saber o que lhes vai na alma.
Tenho fome de vida, fome de experiências, quero muito sentir, dar sentido a tudo o que chama por mim. Por isso tenho de levar o trabalho que a enfermeira começou à vante. É preciso amassar, incluir todos os ingredientes, deixar a massa descansar, para crescer e só depois levar ao forno para finalizar. O meu processo ainda tem um longo caminho pela frente com decisões e realidades difíceis de enfrentar, continuarei este caminho de peito aberto, o que tiver de sair que vá, o que tiver de entrar que venha, principalmente amor e reconstruções mamárias também serão bem vindas, cada coisa a seu tempo, primeiro o amor!

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