Cancro e Processos
06/07/22 Acabei a minha quimioterapia ontem. Foi algo importante para mim, e acho que é bom escrever sobre isso, sobre o que sinto sobre mais este passo dado no caminho da minha cura. Posso dizer-vos que sinto muitas coisas e nada ao mesmo tempo.
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Cancro e processos

Acabei a minha quimioterapia ontem. Foi algo importante para mim, e acho que é bom escrever sobre isso, sobre o que sinto sobre mais este passo dado no caminho da minha cura. Posso dizer-vos que sinto muitas coisas e nada ao mesmo tempo. A minha cabeça parece mais vazia, não sei se tem a ver com a medicação das quimios, o processo, o cansaço do processo e do mestrado, dos trabalhos que vou fazendo. Sinto muita gratidão por o meu corpo ter aguentado tão bem tanto químico que o enfraquece, em proveito de enfraquecer e diminuir o cancro. De qualquer forma este corpo em que habito agora está diferente, por mais que o ame, no sentido de que estou grata por a sua resiliência e força, olho-me no espelho e não me reconheço. Estou mais inchada, com outro peso, com muito poucas pestanas e sobrancelhas, com uns cabelinhos muito fraquinhos a começar a nascer. Sinto os meus pés e mãos inchados e tenho menos sensibilidade em ambos. Ainda assim, estes últimos sintomas só começaram na semana passada, o que é de louvar.

Em suma sinto-me mais frágil hoje do que sentia há alguns meses. Passam-me coisas pela cabeça, como por exemplo pensar se será assim a velhice? Estarei a ter um pequeno flashforward de como é sentir o corpo a envelhecer na velhice? Mas a verdade é que há muita gente jovem que também é ou está frágil assim como eu, o que me leva à conclusão que a fragilidade do corpo não é uma coisa de idade, mas sim uma condição que é imposta ao corpo por alguma consequência da vida. Neste caso a consequência é o tratamento de um cancro da mama, que me afeta a mim como a mais 7% de mulheres abaixo dos 40 anos em Portugal, segundo o professor google. Não é uma taxa muito alta, neste tipo de cancro, para as mulheres jovens, mas quem o tem mais cedo também tem mais hipóteses de se tratar, dependendo da evolução em que é detetado e todas essas variantes que às vezes fazem a diferença entre a vida e a morte.
Eu nunca tive dúvidas de que me ia curar, tive medo, sim, mas a minha crença na recuperação sempre foi mais forte. O meu caso foi descoberto relativamente cedo, porque o meu tumor apareceu como um bombista suicida pronto a rebentar com a minha mamã. Digo isto porque nos dias antes de fazer a primeira quimio, na consulta de enfermagem a enfermeira disse-me, “isso entretanto é capaz de rebentar”. Era portanto um cancro que queria dar nas vistas, com tendências de showoff altas. Antes de saber que era um cancro dei-lhe o nome de “Joca”. Estava sempre a dizer ao longo da sua transformação e crescimento em tom jocoso, que o Joca queria nascer, já estava farto de estar dentro da minha mama, queria ir viajar, ver o mundo, era grande demais para ficar dentro desta mama. Eu estava com ele, também o queria fora do meu corpo, já estava farta daquela bola enorme sempre a aumentar-me no peito. Também quero viajar, ver o mundo, tive de cancelar uma viagem para ficar por Portugal por causa do "Joca" que estava a interferir demais na minha vida. Entretanto, com vários episódios horríveis pelo meio em que não podia sequer sentir a roupa a tocar-me na mama e tive de tirar líquido do dito tumor “mil” vezes e enquanto tinha dores horríveis, mais duas biópsias, porque a primeira nunca mais dava um resultado conclusivo, finalmente descobri que o diagnóstico era cancro. Que alívio, havia um diagnóstico, mas por outro lado, que medo, vou morrer? Estava aliviada por um lado porque queria ser tratada, estava farta de ser furada a torto e a direito com agulhas finas e grossas, anestesias e disparos de “pistola” para me tirarem bocados de carne que fossem bons para análise. Mas por outro lado era cancro…O bicho assustador que devora vidas humanas como um pacman de tempo ilimitado. Cancro, aquele que se associa a morte, dor, sofrimento, sacrifício.
Quando cheguei a casa depois de ter a notícia, chorei, um bocadinho só. Porque não sabia bem qual seria a gravidade da situação e estava saturada daqueles dias em que me sentia tão doente. Ao fim de umas horas, no entanto, já estava a fazer piadas. O tumor tinha passado de Joca a ovo kinder, e acontece que a surpresa era cancro. Foi e está a ser uma jornada interessante, escolhi olhar para ela de uma forma positiva de aprendizagem e crescimento. O meu caso não se mostrou assim tão grave, mas também não é dos mais levezinhos. Há quem não tenha de tirar a mamã ou de fazer químios. Eu tive de fazer a quimioterapia e também terei de retirar as mamas, as duas, cada uma no seu devido tempo porque tenho o gene do cancro hereditário. Muita coisa para processar a partir daqui. Questões de fertilidade, de ter ou não filhos. Coisas que mudam a vida ou a forma de ver a vida de uma pessoa. Por isso, posso dizer que o "Joca" mudou definitivamente a minha vida. E agora que acabou a primeira fase de tratamento a das quimios, o que posso dizer sobre o que sinto? Que ainda tenho muito por andar e que ainda tenho muito por lidar. Mas o balanço é positivo. Esta doença deu-me uma vontade muito forte de criar. Criar arte, criar conteúdo artístico, criar algo que possa ajudar pessoas através da arte. Esta doença deu-me e dá-me motivação para viver, com mais intensidade. Não vou dizer que é bom ter um cancro e podem ter certeza que não quero mais nada com o cancro quando me livrar deste. Mas é verdade que ele me ensinou e está a ensinar muito. Além disso trouxe-me de volta pessoas que estavam ausentes da minha vida há vários anos. Criou uma corrente de amor muito forte à minha volta. As pessoas fazem um esforço maior para estar comigo e para me ouvir, isso é bom, ser ouvida, sentir que sou importante na vida dos que amo. Pena que às vezes tem de vir uma coisa destas para unir mais as pessoas e no meu caso eu já sabia que as pessoas me amavam, mas algumas estavam mais longe e agora vieram para perto, o que me faz um quentinho no coração que é saboroso!
Então é isto que sinto, força para continuar, junto com um misto de confusão em relação às mudanças do meu corpo e mente. Vontade de continuar a criar, mas necessidade de descansar mais, porque o corpo precisa. Dúvidas de como vão ser processadas uma data de coisas no caminho que se segue, sempre com muita curiosidade pela vida, por o que ela me irá trazer para eu aprender, ultrapassar e evoluir! Deixo-vos hoje com uma aquarela que pintei há uns dias e que mostra um pouco disso, um cavalo, duas cabeças. Cores que me agradam, luminosas em maior parte, mas também algumas mais escuras visto a vida não ser só rosas. A dualidade da vida, sempre, representada por estas duas cabeças. Quais são os vossos sentimentos em relação à pintura e ao texto? Gostava muito de saber! Entretanto sejam felizes e estejam em paz convosco, isso parece-me o mais importante, no fim das contas…

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